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27 de janeiro de 2012

Para ti, pai

Pai, lembraste quando estavas sempre a dizer "Temos tempo para tudo" mas eu nunca acreditava? Não acreditava porque todo o meu tempo era gasto na faculdade, não sobrando muito tempo para as coisas realmente importantes. Hoje enquanto estava encostada à parede da sala que antecede o teu quarto, apercebi-me que meia hora passa passa num ápice, quando a probabilidade de saíres do hospital pode ser igual à de não saíres. Máscara, luvas, bata e coragem - foi isto que tive de ter para poder estar contigo. "Já viste onde estás?" perguntaste-me. "Já. Estás sozinho, assim não tens ninguém que te chateie" disse-te eu, sabendo bem as razões que te levaram a estar ali. Oh pai, fica bom. Fica bom e vem para casa. Fica bom e eu levo-te a ver o mar as vezes que quiseres. Fica bom para eu poder acabar o curso e quando for a minha queima das fitas eu agradeço-te a paciência que tiveste comigo quando tinha de ir tirar fotocópias depois do jantar, quando me ias buscar ao comboio a horas tardias e, principalmente, por teres de me ouvir dizer "Pai acorda, já são 6:35, não adormeças, levanta-te!" durante meses a fio. Numa das nossas discussões eu disse-te que não precisava de ti e não imaginas o quão errada eu estava. Preciso de ti. Preciso que me digas "Levanta a moral", preciso que me perguntes "Então amanhã vens a que horas?", preciso que ralhes comigo porque fico acordada até muito tarde. Sempre que acordo à hora de almoço e vou para a cozinha da avó, espero ver-te a chegar e estares a vestir um daqueles fatos-de-macaco azuis que usas desde sempre, que pouses a chave do carro em cima do frigorífico, que vás lavar as mãos, que te sentes para almoçar e que depois faças festas à gata e a arrelies. E hoje quando te vi não foi nada assim. Em vez do fato-de-macaco azul usavas uma bata branca, em vez das chaves do carro tinhas tubos e agulhas, a substituir a cozinha da avó estava uma sala isolada do mundo.
Preciso que fiques bom. Precisamos. O avô chora quando ninguém está a ver para não dar nas vistas; a avó chora quando se lembra da tua situação; a mãe, apesar de tudo, está preocupadíssima contigo; a Catarina (está cada vez mais parecida contigo) faz-se de forte, mas eu bem sei que lidar com isto com apenas 13 anos não é fácil. Vês? Dizias tu que não fazias falta, e agora estamos todos à tua espera. Põe-te bom, eu preciso.

7 comentários:

Jojo disse...

espero que ele fique bom e depressa, e que tu tambem fiques bem. Porque o teu coraçao é de ouro e nao me merece estas coisas. Apesar de nao ter estado presente espero que saibas que tens em mim um ombro amigo para o que der e vier. Nem que seja para ralhar contigo :) ou só para te abraçar com força...

Inês disse...

Beijo grande e força.

Green disse...

Acho que o teu pai iria gostar muito de ouvir tudo o que aqui escreveste.
Desejo as rápidas e boas melhoras para ele, e que tudo fique bem.
Muita força! Beijinhos.

Marta disse...

oh querida muita força, para ti e para o teu pai! Que lhe digas palavras tão bonitas como estas que as dedicas-te aqui :)
beijinhos grandes e força *

Flor disse...

As melhoras para o teu pai! Vai ficar tudo bem... E para ajudar até podias mostrar este teu texto tão sentido e sincero, de certeza que funcionaria melhor que paletes de medicamentos... :)
Beijinhos

Panda disse...

Estou com as lágrimas a cair-me. Ontem estive seis horas nas urgências com o meu pai que não conseguia respirar. Foi um susto, uma aflição daquelas, mas felizmente voltou no mesmo dia para casa. Por isso nem quero imaginar aquilo pelo qual estás a passar. É muito muito duro. As melhoras para o teu pai e tem força por ti e por ele.

Ana T. disse...

Sim eu acho que o teu pai adoraria ler este teu texto. Está sincero, simples, mas cheio de sentimentos. Parece uma espécie de carta dirigida ao teu pai.

Apoia a tua irmã e ela que te apoie também a ti. Às vezes não é preciso muito... bastam poucas palavras para sentir que temos alguém ao nosso lado, para aquilo que precisarmos.

São tantas as vezes que achamos que os nossos pais são uns chatos, mas afinal precisamos tanto deles. Tanto. Se bem que também nos magoam. Mas nós gostamos deles. Eu falo por mim.

Tal como tu disseste. Eu também me ocupo muito com a faculdade e às vezes precisamos de um porto de abrigo, de força para continuar. Sobretudo, de calma.

Calma, coragem e força. É o que te desejo!

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